Com uma rápida passada na internet, hoje em dia é possível levantar os dados de qualquer setor referente aos estados e municípios. Qualquer cidadão pode pegar seu prefeito ou governador pelas bitacas e perguntar o que está fazendo com a verba que enche os cofres. Abaixo, em uma só tabela, uma fotografia do Acre em dez camadas. Leia com atenção.
Tabela 1 – Indicadores socioeconômicos selecionados
| Indicador | Valor | Posição Nacional | |
| 1 | Pobreza (PNAD) | 46,2% da população | 1º (pior) |
| 2 | Extrema Pobreza | 7,6% da população | 3º (pior) |
| 3 | Índice de Progresso Social (IPS 2026) | 58,03 pts | 3º (pior) |
| 4 | IDH (2021) | 0,710 | Entre os mais baixos |
| 5 | IDEB — Anos Finais do Fundamental | 4,7 | Entre os piores |
| 6 | Rendimento Domiciliar Per Capita | R$ 1.271/mês | Entre os mais baixos |
| 7 | Sustentabilidade Social (CLP 2025) | 23º lugar | 5º (pior) |
| 8 | Saneamento Básico (Confea) | Nota 11,28 | 1º (último lugar) |
| 9 | Perdas de Água na Distribuição | 56,48% | 5º (pior) |
| 10 | Investimento em Saneamento | R$ 55,58 mi (2019–2023) | 1º (último lugar) |
Elaboração do autor
Com 10 indicadores socioeconômicos (há muito mais) fica exposta a miséria da administração pública no Acre, diria, nos últimos 30 anos. O que não foi criado foi ampliado no decorrer do tempo, levando-nos a uma situação de expulsão de contingentes acreanos que buscam oportunidades. A tese aqui defendida é de que se as variáveis continuam as mesmas, se a política é de continuidade, obviamente os resultados serão os mesmos. Quase uma tautologia.
Estamos em uma situação de “path dependence” (dependência de trajetória), ou seja, quando um conjunto de atores ocupa o aparelho de Estado por ciclos prolongados, produz-se o que a ciência política chama de “inércia institucional”, na qual as decisões passam a ser orientadas pela preservação do próprio arranjo, e não pela superação dos problemas que o justificam. O poder para continuar no poder, sem real interesse de transformação.
Nesse quadro, os indicadores deixam de ser “falhas corrigíveis” e tornam-se resultados esperados do sistema. A pergunta que fica é estrutural: qual é o incentivo interno para mudar um arranjo que, embora ineficiente para a população, é funcional para quem o ocupa?
Podemos raciocinar conforme o seguinte silogismo: SE resultados socioeconômicos são função de recursos, políticas públicas e da capacidade de quem as executa; E, no Acre, as políticas e os executores permanecem os mesmos; ENTÃO não há base racional para projetar melhoria substantiva.
Outro silogismo (este enunciado por Frederick Winslow Taylor, o fundador da Administração Científica – SE o trabalho for executado por pessoas treinadas da mesma forma, E utilizando os mesmos métodos definidos e recursos idênticos, ENTÃO o resultado deve ser repetido e previsto. Essa lógica é a base dos sistemas modernos de produtividade e qualidade. Logo, se o eleitor acreano quiser produzir resultados que fujam da pobreza assinalada no quadro, precisa mudar as pessoas que regem ou regeram a banda até aqui. Racionalmente simples.
A persistência do Acre nas últimas posições por anos consecutivos sugere que a continuidade não tem produzido convergência com os estados líderes. O estado concentra os piores resultados justamente nas dimensões que dependem de gestão direta: saneamento, educação, segurança e distribuição de renda.
A conclusão lógica: sem mudança de variável, não há mudança de resultado. Se o diagnóstico é aceito, a implicação é direta e irrefutável: A melhoria dos indicadores exige alterar as variáveis da equação — ou os agentes, ou os cargos (a estrutura de incentivos), ou as políticas. Mantido o que está aí, projetar melhora é mais ato de fé do que de razão.
Sim, as políticas podem e devem ser alteradas, os recursos podem ser mais bem administrados e a governança pode recuperar a sensatez. Isso significa atacar a incompetência de ponte caindo, a corrupção flagrada nos inquéritos aos montes e o fisiologismo descarado em nomeações de compadrio. Tudo isso está ligado. O incompetente que assume por vínculo familiar é o mesmo que produz a queda da ponte e assina sem ler (ou lendo tudo) a ordem de pagamento.
No próximo quatro de outubro elegeremos tudo à exceção de prefeitos e vereadores, vale dizer, líderes, planos, interesses. Podemos ter um novo Acre ou o mesmo, depende do eleitor. Esperemos que seu juízo não seja embotado por propagandas falsas, volumes artificiais, promessas vãs ou um trocado para o churrasco. Na atualidade, com a rapidez das mudanças tecnológicas, quatro anos é muito tempo, podemos sair do atraso ou nos enterrarmos mais ainda nele. Pensemos.
Valterlucio Bessa Campelo escreve semanalmente nos sites AC24HORAS, DIÁRIO DO ACRE, ACRENEWS e, eventualmente, no site Liberais e Conservadores do jornalista e escritor PERCIVAL PUGGINA, no VOZ DA AMAZÔNIA e em outros sites. Seu último livro, o ensaio político-filosófico “O anel progressista: como o poder tutelar se torna invisível”, está à venda pela editora independente UICLAP.


